Apobaetis pucupi é uma espécie de efemeróptero (efeméride) da família dos betídeos (Baetidae) e do gênero Apobaetis. Foi descrita em 2014 por Paulo Vilela Cruz e Marcia De-Souza, com base em uma única ninfa proveniente de Minas Gerais. O gênero Apobaetis, originalmente descrito para a América do Norte, teve posteriormente sua distribuição ampliada para a região Neotropical, mas sua diversidade permanece pouco conhecida devido à raridade dos exemplares e à preferência das ninfas por substratos arenosos historicamente pouco amostrados. O epíteto específico pucupi, derivado de raízes tupi-guarani que significam “garra longa”, faz referência às garras tarsais excepcionalmente desenvolvidas da espécie, característica compartilhada por poucas congêneres. A espécie é conhecida apenas pela ninfa madura fêmea, com cerca de três milímetros de comprimento, apresentando coloração predominantemente amarelo-clara e uma combinação singular de caracteres morfológicos. Entre os traços diagnósticos destacam-se o labro com cerdas espatuladas, a língua da hipofaringe trilobada, a projeção distomedial pontiaguda do segundo segmento do palpo labial, o terceiro segmento do palpo retangular e as garras tarsais medindo cerca de uma vez e meia o comprimento dos tarsos. A margem posterior dos tergitos abdominais possui espinhos pontiagudos, e os paraproctos apresentam apenas um espinho marginal. Essas características permitem distingui-la de outras espécies do gênero, inclusive de A. kethepiali, descrita no mesmo estudo. Apobaetis pucupi é conhecida apenas da localidade-tipo, no município de Lima Duarte, em Minas Gerais, onde foi coletada em um pequeno trecho preservado do rio do Salto, na bacia do rio Paraíba do Sul, associado a depósitos arenosos em um rio rochoso. A espécie é considerada psamófila, estando adaptada a substratos arenosos, e integra um grupo de efemerópteros geralmente caracterizado por populações pouco abundantes e baixa agregação espacial. Apesar da preservação local do ponto de coleta, a região circundante sofre intensa pressão antrópica associada à agropecuária, com desmatamento, remoção da vegetação ripária, assoreamento e aumento da turbidez dos cursos d’água. Conhecida por um único exemplar, a espécie exemplifica as dificuldades de amostragem e a vulnerabilidade potencial das populações de Apobaetis.

Taxonomia e sistemática Apobaetis pucupi é uma espécie de efemeróptero da família dos betídeos, pertencente ao gênero Apobaetis. Foi descrita em 2014 por Paulo Vilela Cruz e Marcia De-Souza, juntamente com Apobaetis kethepiali, a partir de ninfas coletadas no Brasil. O gênero Apobaetis havia sido originalmente descrito por Day em 1955 com base em ninfas e adultos dos Estados Unidos e posteriormente teve sua distribuição ampliada para a região neotropical com a descrição de A. signifer para o Paraguai e o Brasil. Apesar do aumento de registros sul-americanos nas décadas seguintes, o conhecimento sobre a diversidade e distribuição do gênero permaneceu limitado, em parte pelo pequeno número de exemplares conhecido para muitas espécies e pela preferência das ninfas por substratos arenosos, historicamente pouco amostrados em coletas de campo. Na época da descrição de A. pucupi, Apobaetis compreendia nove espécies válidas: A. futilis, A. etowah, A. signifer, A. lakota, A. fiuzai, A. insolitus, A. kallawaya, A. niger e A. hamadae, com registros conhecidos para Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, México, Paraguai e Estados Unidos. As ninfas do gênero distinguem-se de outros baetídeos principalmente por caracteres das peças bucais, como o segundo segmento do palpo labial com forte projeção medial, o labro expandido lateralmente e cerca de duas vezes mais largo que longo, além de garras tarsais longas e delgadas. Garras tarsais muito alongadas são frequentes em grupos psamófilos de Baetidae, mas em Apobaetis raramente ultrapassam o comprimento do tarso. Antes da descrição de A. pucupi e A. kethepiali, essa condição era conhecida apenas em A. lakota, dos Estados Unidos, e A. hamadae, do Brasil. O epíteto específico pucupi deriva de raízes tupi-guarani: pucu, "longo", e pi, "garra", em referência às garras tarsais excepcionalmente longas da espécie. O nome alude também ao fato de línguas tupi-guarani serem faladas por povos indígenas do litoral brasileiro. O material-tipo é constituído por uma única ninfa, designada como holótipo, montada em lâmina e depositada na Coleção de Invertebrados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus.

Descrição Apobaetis pucupi é conhecida a partir de uma ninfa madura fêmea com três milímetros de comprimento corporal. A antena, os cercos e o filamento terminal do holótipo estavam quebrados. A coloração geral é amarelo-clara. A cabeça e a antena são amarelo-claras, assim como a porção turbinada dos olhos compostos. O tórax é amarelo-claro. Nas pernas anteriores, fêmur, tíbia e tarso também são amarelo-claros; o fêmur apresenta uma marca castanho-clara na região mediana da superfície anterior e outra na margem dorsal apical, enquanto a tíbia possui uma marca castanho-clara na base da margem ventral. O abdome é amarelo-claro, com os tergitos II, III e VI castanhos na região mediana, o tergito V castanho próximo à margem lateral, todos os tergitos com quatro manchas na margem anteromediana e uma marca lateral. A cabeça apresenta antenas com espinhos diminutos e cerdas finas e simples no ápice de cada segmento, além de fronte com duas quilhas. O labro é retangular, mais largo que longo, com comprimento equivalente a cerca de 0,69 vez sua largura máxima; sua margem distal possui emarginação mediana rasa, a superfície ventral apresenta cerdas robustas semelhantes a espinhos nas margens anterolateral e distal, e a superfície dorsal possui três a quatro cerdas curtas e espatuladas próximas à margem distal, além de cerdas longas e finas. A mandíbula direita possui incisivos profundamente divididos em dois conjuntos, com três dentículos no conjunto externo e dois no interno; a prosteca é delgada e bifurcada na região mediana, a margem entre a prosteca e a mola é côncava, há tufo de cerdas espiniformes na base da mola, os dentículos da mola não são constritos e o ápice da mola possui duas cerdas simples. A mandíbula esquerda apresenta incisivos também profundamente divididos, com cinco dentículos no conjunto externo e três no interno; a prosteca é robusta e bifurcada na região mediana, com lobo interno delgado e lobo externo robusto, a margem entre prosteca e mola é côncava, o tufo de cerdas espiniformes na base da mola está ausente, o processo subtriangular é largo e a margem lateral é convexa. A hipofaringe possui língua subquadrangular com três lobos, sem tufo apical de cerdas, ligeiramente mais longa que a superlíngua; a superlíngua não é expandida, e cerdas curtas, finas e simples distribuem-se pela margem distal de ambas as estruturas. A maxila possui palpo maxilar longo, equivalente a 1,5 vez o comprimento da gálea-lacínia; o segundo segmento do palpo mede 1,4 vez o comprimento do primeiro e apresenta constrição apical. O lábio possui glossa larga na base, estreitada no ápice e mais longa que a paraglossa; a margem interna é nua, o ápice possui três cerdas curtas espiniformes, a margem externa apresenta oito cerdas espiniformes e a superfície ventral é recoberta por cerdas finas e longas. A paraglossa é curvada para dentro, com ápice nu, margem externa com uma fileira de oito cerdas espiniformes robustas, superfície dorsal com uma fileira longitudinal de sete cerdas robustas próximas à margem interna e superfície ventral com uma fileira longitudinal de sete cerdas robustas na região mediana. O palpo labial possui o primeiro segmento equivalente a 0,87 vez o comprimento combinado dos segmentos II e III; o segundo segmento apresenta projeção distomedial pontiaguda e dirigida apicalmente; o terceiro segmento é retangular, com comprimento equivalente a 0,40 vez sua largura. Nas pernas anteriores, a proporção entre fêmur, tíbia, tarso e garra tarsal é de 1,8:1:1,1:1,3. O fêmur anterior mede cerca de 4,9 vezes sua largura máxima, possui dorsalmente uma fileira de doze cerdas curtas, côncavas e de ápice reto, além de duas cerdas côncavas e arredondadas no ápice; ventralmente, apresenta fileira de cerdas espiniformes alongadas. A tíbia é dorsalmente nua e ventralmente possui uma fileira de nove cerdas espiniformes curtas; a sutura tíbio-patelar está presente. O tarso é dorsalmente nu e ventralmente apresenta uma fileira de dez cerdas espiniformes curtas. As garras tarsais medem 1,54 vez o comprimento do tarso e não apresentam fileira de dentículos, constituindo um dos principais caracteres diagnósticos da espécie. A superfície dos tergitos abdominais é coberta por espinhos triangulares semelhantes a escamas, microporos e cerdas curtas, finas e simples. A margem posterior dos tergitos possui espinhos regulares e pontiagudos. Os esternitos são brancos. As brânquias estavam perdidas no holótipo. O paraprocto possui um único espinho marginal, e sua extensão posterolateral não apresenta espinhos. Os cercos possuem pequenos espinhos laterais em todos os segmentos preservados, enquanto o filamento terminal não possui espinhos.

Diagnose e comparação Apobaetis pucupi distingue-se pela seguinte combinação de caracteres em ninfas maduras: margem distal do labro com cerdas espatuladas na região mediana; palpo maxilar 1,5 vez mais longo que a gálea-lacínia; segundo segmento do palpo maxilar com constrição apical; margem apical da língua com três lobos; segundo segmento do palpo labial com projeção distomedial pontiaguda e dirigida apicalmente; terceiro segmento do palpo labial retangular, com comprimento equivalente a 0,40 vez sua largura; garra tarsal 1,54 vez mais longa que o tarso; margem posterior dos tergitos abdominais com espinhos pontiagudos; paraprocto com um único espinho marginal e extensão posterolateral sem espinhos. A espécie compartilha com A. lakota, A. hamadae e A. kethepiali a presença de garras tarsais mais longas que os tarsos. Difere de A. lakota pela presença de cerdas espatuladas na margem distal do labro, em contraste com as cerdas simples daquela espécie, e pela projeção distomedial do palpo labial, que é pontiaguda em A. pucupi e fortemente arredondada em A. lakota. Difere de A. hamadae pelo terceiro segmento do palpo labial subretangular, não subtriangular, e pelo número de espinhos marginais no paraprocto: um em A. pucupi, contra 13 a 15 em A. hamadae. Em relação a A. kethepiali, descrita no mesmo estudo, A. pucupi distingue-se pelo segundo segmento do palpo maxilar com constrição apical, pelo primeiro segmento do palpo maxilar mais curto que a gálea-lacínia, pela projeção distomedial pontiaguda do segundo segmento do palpo labial, pelas margens distais dos tergitos abdominais com espinhos pontiagudos e pelo paraprocto com apenas um espinho marginal. Em A. kethepiali, o segundo segmento do palpo maxilar não apresenta constrição, o primeiro segmento do palpo maxilar alcança o ápice da gálea-lacínia, a projeção distomedial do palpo labial é reta, as margens distais dos tergitos são lisas e os paraproctos possuem quatro espinhos marginais.

Distribuição e habitat Apobaetis pucupi é conhecida apenas da localidade-tipo, no município de Lima Duarte, em Minas Gerais, no sudeste do Brasil. O holótipo foi coletado em 26 de outubro de 2011, em um riacho localizado na estrada para Ibitipoca, após uma ponte, nas coordenadas 21°47'55,0"S, 43°49'27,7"W, por Paulo Vilela Cruz e Marcia R. De-Souza. A espécie ocorre na Mata Atlântica, na sub-bacia do Paraíba do Sul, tendo sido coletada em um acúmulo de areia com sedimento em um rio rochoso, em um pequeno trecho bem preservado do rio do Salto, o que reforça a associação do gênero Apobaetis a substratos arenosos e hábitos psamófilos. Diferentemente da localidade-tipo de A. kethepiali, situada em área isolada do extremo norte do Brasil, a localidade de A. pucupi não corresponde a uma região remota, mas a um riacho cercado por fazendas de criação animal e plantações. A espécie integra o conjunto de efemerópteros psamófilos de Apobaetis, cujas ninfas são associadas a substratos arenosos. Esse tipo de hábitat foi historicamente pouco amostrado, o que contribui para o conhecimento incompleto da diversidade e distribuição do gênero. A preferência por ambientes arenosos também está relacionada ao desenvolvimento de garras tarsais longas, característica comum em grupos psamófilos de Baetidae e particularmente acentuada em A. pucupi.

Conservação Embora não tenha sido apresentada uma avaliação formal do estado de conservação de Apobaetis pucupi, sua única localidade conhecida encontra-se em uma região submetida a intensa pressão antrópica. O pequeno trecho preservado do rio do Salto onde a espécie foi coletada está inserido em uma paisagem fortemente modificada por atividades agropecuárias, que causam desmatamento, remoção da vegetação ripária, assoreamento e aumento da turbidez dos cursos d'água. A espécie é conhecida apenas por um único exemplar, situação comum em Apobaetis, cujas espécies frequentemente apresentam baixa abundância aparente e são difíceis de amostrar. Os efemerópteros psamófilos, como Apobaetis, tendem a apresentar baixa agregação espacial, baixa diversidade e maior vulnerabilidade, de modo que cada população pode representar uma unidade biológica particularmente relevante. Por essa razão, as populações desse tipo não devem ser negligenciadas, mesmo quando o tamanho corporal reduzido, a preferência por substratos arenosos e as dificuldades de amostragem resultem na obtenção de poucos espécimes.

Referências