Caros leitores, digníssimas leitoras… todo ano alguém aparece com a pergunta: “Qual é o carro mais vendido do Brasil?” E todo ano a resposta é a mesma: meia verdade embrulhada em PowerPoint. Se você olhar o ranking geral, a Fiat Strada é a campeã. Se você olhar o varejo, o BYD Dolphin Mini é o campeão. Se você olhar com atenção, percebe que o Brasil tem dois campeões porque tem dois mercados — e um deles é artificial. Quando quem compra é o brasileiro de carne e osso, o ranking muda de país. O varejo é dominado por marcas que, até ontem, eram tratadas como piada em mesa de bar: O consumidor brasileiro está fazendo o que as montadoras tradicionais não fizeram: evoluindo. Ele está comprando elétrico. Ele está comprando híbrido. Ele está comprando chinês sem medo — e sem pedir bênção para a concessionária. O varejo virou o laboratório da nova ordem automotiva. E, nesse laboratório, quem manda é a China. Agora, quando quem compra é empresa — especialmente locadora —, o ranking vira uma caricatura dos anos 2010: Aqui, as chinesas praticamente desaparecem. BYD aparece? Sim. Mas lá embaixo, com 13 mil unidades, quase como nota de rodapé. Porque locadora não compra futuro. Locadora compra planilha. Compra custo por quilômetro. Compre peça barata. Compra carro que já sabe desmontar de olhos fechados. E, claro: compra volume — muito volume — para fechar balanço e fugir de tributação. O mercado PJ é o último zoológico das marcas tradicionais. Um museu vivo em que Fiat, VW e GM ainda fingem que o mundo não mudou. O campeão do varejo é chinês. O campeão das empresas é Fiat. O campeão geral é Fiat — graças às locadoras. Ou seja: o ranking geral não mostra o carro que o brasileiro escolhe. Mostra o carro que as locadoras compram. O varejo aponta para 2030. O PJ ainda vive em 2015. E o ranking geral mistura os dois — criando uma fantasia estatística que só serve para coletiva de imprensa. O Brasil não tem um carro mais vendido. Tem dois países disputando o volante. O Brasil do consumidor já é elétrico, híbrido, chinês, conectado. O Brasil das empresas ainda é flex, manual, tradicional, previsível. E é por isso que, em 2026, a resposta para “qual é o carro mais vendido do Brasil?” é: depende de quem está comprando — e de quem está tentando te convencer.✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp








