Déchargement de bateaux (Le Havre) (em português: Descarregamento de barcos (Le Havre)) é um curta-metragem francês de filme mudo e documentário de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Distribuído pela Star Film, o filme é registrado com o número 27 em seu catálogo. Com aproximadamente 20 metros de película, equivalentes a cerca de um minuto de projeção, presume-se registrar operações de descarregamento de embarcações no Porto do Havre, filmado a bordo de um barco durante a estadia de Méliès na Costa da Normandia no verão de 1896. Nenhuma descrição do conteúdo foi localizada nos catálogos da Star Film conhecidos até hoje; o tema é inferido pelo título. O filme é considerado perdido.

Enredo O filme presume-se registrar operações de descarregamento de embarcações nos cais do Porto do Havre, provavelmente captando estivadores em trabalho e o movimento de cargas sendo transferidas dos navios para o cais. Nenhuma descrição do conteúdo foi localizada nos catálogos da Star Film conhecidos até hoje; todo o conteúdo é inferido exclusivamente pelo título.

A viagem normanda de 1896 No verão de 1896, Georges Méliès empreendeu uma viagem à Costa da Normandia, hospedando-se em Villers-sur-Mer, e aproveitou a estadia para realizar uma série de filmagens ao ar livre. No total, produziu oito filmes durante essa viagem, cobrindo diferentes locações e temas da região normanda — entre eles praias com mau tempo, o porto do Havre, panoramas marítimos e cenas costeiras. A série corresponde a um padrão já estabelecido em sua produção de filmes de atualidade: aproveitar deslocamentos para registrar temas e paisagens fora de Paris, ampliando o repertório documental do catálogo da Star Film. Durante as filmagens de Déchargement de bateaux e do Panorama du Havre vu d'un bateau (n.o 34), realizadas a bordo de uma embarcação no porto, um paquet de mer — onda de tempestade — atingiu a câmera de Méliès, interrompendo as filmagens e danificando o equipamento. O incidente é um dos raros relatos de acidente técnico documentados na produção inicial de Méliès, e ilustra as condições adversas enfrentadas pelos pioneiros do cinema ao filmar em locações externas com os equipamentos pesados e frágeis da época. Méliès descreveu em 1907, em texto publicado no Annuaire général et international de la photographie, o tipo de filmagem que realizava nesse período: as vues de plein air (vistas ao ar livre) consistiam em reproduzir cinematograficamente cenas da vida cotidiana — em ruas, praças públicas, no mar, em barcos e rios, em trem —, em contraste com os sujets composés (assuntos compostos), filmados em estúdio com atores e cenários preparados.

O Porto do Havre em 1896 Le Havre era, em 1896, o segundo maior porto da França em volume de mercadorias, superado apenas por Marselha. Situado na foz do Sena, no canal da Mancha, o porto do Havre era o principal ponto de entrada e saída de mercadorias do Atlântico Norte para o interior da França, concentrando tráfego intenso de navios a vapor carregados de algodão, café, madeira e produtos manufaturados. As operações de descarregamento nos cais — realizadas por equipes de estivadores com equipamentos manuais e guindastes a vapor — eram uma cena de dinamismo e movimento constante, característica dos grandes portos industriais do final do século XIX. O porto do Havre havia sido objeto de reforma e ampliação sistemática ao longo do século XIX, com a construção de diques e bacias adicionais sob os reinados de Luís Filipe e Napoleão III. Em 1896, a infraestrutura portuária estava em plena expansão para acomodar os navios de maior calado que a nova geração de vapores oceânicos exigia. O espetáculo visual do trabalho portuário — guindastes, estivadores, embarcações a vapor e veleiros — era o tipo de cena que os pioneiros do cinema buscavam registrar como símbolo da modernidade industrial, e que atraía público tanto pelo dinamismo quanto pela novidade do próprio cinematógrafo.

Produção Déchargement de bateaux (Le Havre) foi filmado a bordo de uma embarcação ancorada ou em movimento no porto do Havre, com a câmera portátil Méliès-Reulos operada pelo próprio Georges Méliès. A câmera móvel era considerada por Méliès particularmente adequada para as vues de plein air, permitindo captar cenas em movimento e em locações externas que o equipamento fixo de estúdio não alcançava. O filme integra o conjunto de filmes de atualidade produzidos entre 1896 e 1900, que totalizam 93 títulos — cerca de 18% de toda a obra de Méliès. O número 27 no catálogo da Star Film situa o filme na sequência dos títulos da viagem normanda: o filme seguinte, Plage de Villers par gros temps (n.o 28), foi filmado na praia de Villers-sur-Mer com mau tempo, provavelmente na mesma estadia. Outros filmes da mesma viagem incluem o Panorama du Havre vu d'un bateau (n.o 34), Jetée et plage de Trouville (n.o 30 e 32) e Barque sortant du port de Trouville (n.o 31).

Preservação O filme é classificado como filme perdido. O suporte em nitrato de celulose era altamente inflamável e quimicamente instável; parte significativa dos negativos foi destruída pelo próprio Méliès durante a crise financeira que se seguiu à Primeira Guerra Mundial — as películas eram queimadas deliberadamente para fundir a emulsão e recuperar o nitrato de prata nela contido, que tinha valor comercial —, e outra parte foi requisitada pelo exército francês durante o conflito. Estima-se que, dos aproximadamente 520 filmes realizados por Méliès entre 1896 e 1912, apenas cerca de 200 tenham sobrevivido.

Ver também Georges Méliès Star Film Company Le Havre Porto do Havre Villers-sur-Mer Filme perdido Filme mudo Filme de atualidade

Referências

Ligações externas Déchargement de bateaux (Le Havre) no IMDb