Matheus Leitão

Carlos não têm perfil, Jair Renan, idade. Michelle tem Valdemar, mas não o aval do clã. Tarcísio e Nikolas já se movem pela herança

Matheus Leitão
27/10/2026 19:11
Com fuga de Flávio, bolsonarismo fica sem herdeiro e a direita se mexe
A família Bolsonaro saiu da eleição sem candidato vitorioso e, dois dias depois, também sem quem a represente no país. O prazo de 24 horas para Flávio entregar os passaportes comum e diplomático venceu às 11h desta terça (27/10). Como ele não cumpriu a ordem e há relatos de que foi visto na Argentina, passou a ser tratado como foragido. Aliados afirmam que o governo Trump apoiou a saída e sinalizou que concederá asilo político. No entorno do senador, o episódio é tratado como perseguição. Nikolas Ferreira, por exemplo, questionou que segurança teria um cidadão comum se um candidato com 60 milhões de votos precisa deixar o país.
A fuga desmonta um plano traçado na véspera. Na segunda (26/10), uma reunião de Flávio com governadores e articuladores do PL havia definido que ele ficaria no Brasil para liderar a oposição ao governo Lula. Flávio liderou o primeiro turno, mas terminou o segundo com 48,21% dos votos válidos, contra 51,79% de Lula. Agora, ele deixa para trás um campo sem comando. Jair Bolsonaro está preso e inelegível, e Eduardo continua nos EUA. Contra Eduardo há um mandado de prisão no Brasil, e Flávio também pode ser preso se voltar.
Os filhos que restam
A sucessão de sangue, aposta do patriarca desde o início, tem poucas opções. Carlos foi eleito senador por Santa Catarina, e Jair Renan, deputado federal pelo mesmo estado. Nenhum dos dois tem perfil para comandar o grupo. Carlos construiu a carreira nos bastidores. Em 2022, coordenou as redes sociais da campanha do pai, e não tem trânsito com partidos. Jair Renan, por sua vez, foi eleito vereador de Balneário Camboriú em 2024 e só agora chega ao Congresso, para o primeiro mandato. Não preciso nem dizer que é muito jovem para o papel.
Michelle, a carta que o clã evitou
O nome com mais votos próprios dentro da família é o da madrasta. Michelle foi a mais votada para o Senado no Distrito Federal, com 29,1% dos votos válidos, e terá oito anos de mandato. Ela também é antiga preferida do comando partidário. Valdemar Costa Neto já disse que, depois de Bolsonaro, ela era a única capaz de vencer Lula num segundo turno. O principal obstáculo do passado deixa de existir. Segundo Valdemar, Bolsonaro não queria Michelle num cargo executivo antes de ela ganhar experiência com um mandato.
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E Valdemar, experiente político, já chamou Michelle Bolsonaro para perto e publicou nas redes sociais: “Recebi hoje a senadora eleita Michelle Bolsonaro para uma conversa sobre o futuro do nosso partido e os desafios que temos pela frente. Seguimos unidos, com diálogo, responsabilidade e compromisso com o Brasil”.
A relação com os enteados, porém, segue ruim. Michelle deixou a presidência do PL Mulher em junho e, mesmo depois de se reconciliar com Flávio, não se engajou na campanha dele. Antes disso, Eduardo a chamou de “imatura” por causa de um vídeo contra Flávio.
Nesta terça (27/10), a postura de Michelle foi ambígua. Segundo aliados, ela confirmou a pelo menos dois deles que o enteado havia deixado o país. Em público, ironizou a notícia e a chamou de fofoca. Ainda que tenha Valdemar ao seu lado, ela não decide sozinha. O próprio Valdemar repete que quem manda no PL é Bolsonaro, e já condicionou até a candidatura dela ao Senado à autorização do ex-presidente. Até agora, ninguém sabe se Jair ou os filhos dariam esse aval.
Tarcísio fora do clã
A outra saída é a direita se reorganizar fora do núcleo familiar, e o governador de São Paulo foi o primeiro a se mexer. Ainda nesta terça, Tarcísio publicou um vídeo em que agradece aos quase 60 milhões de eleitores de Flávio e defende a continuidade do projeto da direita. Ele foi reeleito no primeiro turno com 63% dos votos válidos. O Republicanos já o trata como candidato natural à Presidência em 2030, e parte do centrão lamentou que o candidato deste ano não tenha sido ele. O nome de Michelle volta a circular como vice numa eventual chapa encabeçada por Tarcísio.
O limite dessa estratégia é a dependência do eleitor bolsonarista. Analistas avaliam que Tarcísio ainda precisa do apoio da família Bolsonaro para 2030.
Nikolas, o influente sem idade
O fenômeno das redes sai da eleição maior, mas com restrições. Nikolas foi reeleito com a maior votação do país, mas não poderá disputar a Presidência em 2030 porque ainda não terá os 35 anos exigidos pela Constituição. Mesmo assim, poderá influir na escolha do candidato da direita. Seu projeto imediato é o governo de Minas Gerais, e os atritos com o clã continuam. Uma ala do PL o responsabiliza pela derrota de Flávio em Minas, e a briga com Eduardo o deixa numa posição ambígua. Sua reação à fuga indica cautela. Ele apagou a primeira publicação sobre a saída de Flávio e a refez acrescentando a palavra “supostamente”.
O preço da fuga
O episódio enfraquece o argumento de perseguição que sustentou o bolsonarismo nos últimos anos. Lideranças da direita estão constrangidas e avaliam que a saída alimenta uma “presunção de culpa” diante das investigações. Valdemar convocou uma reunião de emergência no PL na tarde desta terça. Como Lula não poderá concorrer em 2030, a disputa pelo comando da direita já começou. Ou o comando fica com Michelle, se Jair aceitar, ou passa a nomes de fora da família.


